Introdução

Ruth Cardoso, formadora

Um olhar sobre a vida da Dra. Ruth Cardoso a partir de seu legado transversal de formação de pessoas, que deixou marcas na academia, nas políticas sociais e na vida daqueles que interagiram com ela.

 

Ruth Villaça Corrêa Leite Cardoso (Araraquara, 1930– São Paulo, 2008) foi uma intelectual e ativista social cujo legado perdura nos tempos atuais. 

Antropóloga formada pela USP, foi docente e pesquisadora na mesma universidade, no Cebrap, do qual foi uma das fundadoras, e em universidades como Berkley, Columbia e Universidade do Chile. Foi pioneira no campo da antropologia urbana e contribuiu para a consolidação da disciplina no Brasil através de sua pesquisa e da orientação de teses sobre temas como movimentos sociais, favelas, juventude, feminismo, entre outros. 

Quando seu marido Fernando Henrique Cardoso foi eleito Presidente da República, ela ressignificou o papel de “primeira-dama” — termo que reconhecidamente a desagradava. Nesse período criou o Programa Comunidade Solidária e, como presidente do seu Conselho, robusteceu as relações entre Estado e Sociedade Civil  e fortaleceu o Terceiro Setor no Brasil. Desse contexto surgiram programas como Alfabetização Solidária, Universidade Solidária, e Artesanato Solidário, voltados à combater a pobreza e a desigualdade social através da capacitação de comunidades como agentes do próprio desenvolvimento. 

Essa exposição examina sua visão e ação formadora e seu subsequente legado através de depoimentos, relatos e documentos. Estruturada em quatro eixos — Dialogar, Cuidar, Capacitar e Marcar — traz um olhar retrospectivo para a vida da Dra. Ruth Cardoso focando na sua trajetória de formação de pessoas. Olhando para os princípios que a guiavam tanto na teoria quanto na prática, tanto na ação macro — concebendo programas sociais inovadores para todo o país — quanto no micro — ensinando os amigos a cozinhar — busca iluminar esse legado largamente imaterial. Cada página contém uma galeria de objetos digitais vídeos, textos, fotos, áudios a serem explorados.

Uma professora que gostava “muito de ensinar, mas não de dar aula”, que exercia o ensino “cotidianamente, em todos os momentos”, deixou um amplo legado de formação de pessoas, através dos programas sociais que desenvolveu, de seus alunos e orientandos que passaram a compor importantes quadros universitários, do conhecimento que produziu como pesquisadora, e das trocas diárias com aqueles ao seu redor. Sua atitude formadora, transversal e absolutamente coerente, tocou todos que interagiram com ela ao longo da vida.

Texto completo: Ciclo de Palestras para Mulheres – Porque política é coisa de homem? 

(Acervo Ruth Cardoso)

DIALOGAR

Trabalho intelectual: uma produção coletiva

A obra intelectual de Ruth Cardoso foi marcada pelo diálogo.

Sua abordagem à produção de conhecimento como ato coletivo sublinhou seu estilo de ensino dentro e fora da sala de aula. Na USP orientou muitos alunos e criou, junto à Eunice Durham, o Seminário de Segundas-Feiras, onde debatiam teoria e aspectos práticos de pesquisa com os jovens orientandos; no Cebrap organizou seminários com Vilmar Faria e José Arthur Giannotti; nos encontros anuais da Anpocs montou o Grupo de Trabalho “Cultura Popular e Ideologia Política” junto à Gilberto Velho, seu primeiro orientando.

Uma pioneira da antropologia urbana, ampliou o campo antropológico através da pesquisa e orientação de temas ligados à movimentos sociais, feminismo, democracia, favelas, mídia, juventude, e metodologia.

Como professora e pesquisadora, criou espaços de troca com e entre os alunos e orientandos, modelo que carregou consigo para outras esferas de atuação, como no engajamento com movimentos sociais, atuando nos conselhos feministas e concebendo programas sociais, ou na vida pessoal, fazendo também de sua casa ponto de encontro para discussões intelectuais multidisciplinares. Essa produção, largamente oral, ficou registrada nas memórias daqueles que trabalharam e conviveram com ela.

 “Ruth foi, de fato, responsável pela formação de boa parte de uma geração de antropólogos. Muitos professores e pesquisadores do Museu Nacional, de Campinas e da USP trabalharam seu doutorado com ela e, em todos, ela deixou uma marca. Nenhum escapou ao seu fascínio.” – Eunice Durham

DIALOGAR - Orientação

“Gosto de pensar que orientar é o melhor caminho para aprender." – Ruth Cardoso

Entre 1975 e 1999, orientou 34 alunos de mestrado e doutorado na USP, além de assistentes de pesquisa no Cebrap, muitos dos quais passaram a compor quadros de professores em universidades como USP, UNICAMP e o Museu Nacional (UFRJ). É  lembrada pelos alunos por sua generosidade intelectual, marcada pelo entusiasmo de compartilhar as novidades teóricas com as quais entrava em contato no exterior (por exemplo, reintroduziu os estudos de Lévi-Strauss na USP após frequentar seus cursos na França), pela valorização do trabalho coletivo e pelo incentivo à autonomia e liberdade de pensamento.

Sua ação formativa com os alunos não se resumia à academia, mas passava por um interesse ativo em desenvolver relações de afeto, transformando vários de seus orientandos em colaboradores e amigos da vida toda.

Ao lado, clique nas setas para ver depoimentos em vídeo de seus orientandos, alunos e assistentes de pesquisa:
1 - Maria Filomena Gregori
2 - Simone Coelho
3 - Ana Cristina Braga Martes
4 - Helena Sampaio
5 - Antonio Arantes

DIALOGAR - Agradecimentos

“A Ruth Cardoso, mais do que agradecer a orientação..."

Nos depoimentos e agradecimentos de seus orientandos é possível perceber os contornos distintos dessa orientação generosa, afetiva e rigorosa.

Incentivava os alunos a publicarem suas pesquisas, escrevia prefácios e apresentações dos seus livros, e organizava espaços coletivos de diálogo e troca dentro e fora da universidade. Dessa forma, para além da formação de alunos, contribuiu também para formar o próprio campo da antropologia urbana no Brasil.

“Muitos alunos, orientandos ou não, sofreram sua influência não só acadêmica, no sentido mais estrito, mas também pessoal, de modo mais amplo. Essencialmente, isso consistia em um aprendizado do respeito pelo trabalho alheio e na crença da importância da ação coletiva que, sem esmagar individualidades, abria terreno para encontros, diálogos e descobertas comuns.” – Gilberto Velho

DIALOGAR - Docência

Docência, uma aventura antropológica

“Com a Ruth praticávamos uma espécie de militância didática, éramos fanáticas por ensino, queríamos continuamente preparar o melhor curso, o melhor seminário, discutíamos muito porque os alunos não aprendiam isto, não aprendiam aquilo (…)” – Eunice Durham

Ao longo da vida Ruth Cardoso deu aula de Antropologia em uma diversidade de contextos. Foi professora no Colégio Estadual Fernão Dias Paes (1952), na Faculdade Municipal de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (1955-57), na USP (1960-1998), na Universidade do Chile (1966), na École des Hautes Études en Sciences Sociales (1981) e na Universidade de Berkeley (1981, 2000), para citar apenas alguns.

Seu interesse em educação era mais amplo que a dinâmica professor-aluno, e se dedicou intensamente à ensinar para além da sala de aula. Considerava que um professor de Antropologia deveria incentivar a curiosidade intelectual de seus alunos, e que a pesquisa deveria ser pensada desde o início de maneira didática, envolvendo o aluno em todos os estágios. Sua orientação de pesquisa, portanto, era parte integral de suas atividades pedagógicas dentro e fora dos espaços universitários.

1 - Texto “O Ensino da Antropologia no Brasil”, em co-autoria com Eunice Durham, publicado em 1961 na Revista de Antropologia.
2 - Orientação de tese da aluna Ana Cristina Braga Martes (USP) por fax
3 - Páginas selecionadas de relatório de pesquisa do Cebrap escrito por Esther Hamburger, com orientações em caneta vermelha por Ruth Cardoso
4 - Depoimento de Simone Coelho sobre fazer reuniões de orientação de tese no Palácio do Planalto
5 - Depoimento de FHC sobre a relação de ensino que Ruth Cardoso tinha com os alunos e os filhos

DIALOGAR - A casa como espaço de diálogo

A sala de estar, um palco para debates

A casa dos Cardoso era, para além de um espaço doméstico, um ponto fixo — ainda que geograficamente flutuante — de debate intelectual. Independente da rua ou país em que morassem, Ruth e Fernando Henrique abriam suas casas para serem locais de encontro de um grupo eclético que incluía cientistas sociais e de outras áreas, artistas plásticos, escritores, e músicos. No apartamento de Santa Cecília, e depois na casa do Brooklin, se encontravam para o grupo de estudos de Marx e sediaram um ciclo de aulas de literatura francesa com o poeta haitiano René Depestre.

Na casa do Morumbi, quando reuniões políticas eram proibidas pela Ditadura, conceberam e fundaram o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), um centro de estudos independente, fora da universidade, voltado a produzir conhecimento sobre a realidade brasileira. Nessa mesma casa, hospedaram por um mês o então jovem sociólogo Manuel Castells, que manteve uma rica troca intelectual com Ruth Cardoso ao longo da vida.

O interesse de Ruth Cardoso no diálogo, no pensamento e na ação coletiva atravessava todas as esferas da vida, compondo parte essencial de sua casa.

Depoimento de Fernando Henrique Cardoso sobre a construção conjunta da casa como espaço de debates

CUIDAR

“Isso não está de acordo com os nossos padrões araraquarenses”

No ato de cuidar — da casa, dos filhos, dos alunos, dos colegas — Ruth Cardoso também educava. O cuidado, manifestado com delicadeza através de conversas cotidianas, do compartilhamento de receitas, da orientação de jovens e mesmo do engajamento com questões sociais, era parte de sua abordagem pedagógica completa. Em larga medida esse cuidado remetia à sua formação interiorana.

Araraquara, cidade do interior de São Paulo onde Ruth foi nascida e criada, fez parte integral do seu ethos formativo. Apesar de ter mudado para São Paulo capital ainda adolescente, para estudar no internato Des Oiseaux, a vida toda evocou a cidade natal como uma referência para sua conduta. “Sei como são as coisas aqui, sou de Araraquara” ou “Isso não está de acordo com nossos padrões araraquarenses” eram frases corriqueiras. Carregou consigo os valores do interior — a conversa fácil enquanto “passava o café”, os guisados de longo preparo, a valorização do artesanal.

1 - Araraquara, fevereiro de 1945. Ruth Cardoso é a segunda da esquerda para a direita. (Acervo Ruth Cardoso)
2 - Depoimento de Celso Lafer sobre interesse compartilhado por Araraquara

CUIDAR - Doutora Mariquita

“Ela era um mito na cidade, mulher moderna e excelente professora.” – Iara Prado

Maria Villaça Corrêa do Leite (1906-1975), mais conhecida como Mariquita, foi farmacêutica e professora por três décadas.  Lecionou do ensino primário ao superior, sempre na área de Ciências Naturais, com especial foco em Botânica. Aos 61 anos, estimulada por Ruth, tornou-se doutora em Ciências pela Faculdade de Farmácia e Odontologia de Araraquara com uma tese sobre a buchinha-do-norte (Luffa operculata) que recebeu grau de distinção e louvor.

Natural de São Roque (SP), mudou-se para Araraquara ao casar-se com o contador José Correia Leite e lá viveu a maior parte da vida, tornando-se uma ilustre araraquarense. À sua filha Ruth deu o exemplo de autonomia, da carreira de professora, do valor da educação formal e do conhecimento artesanal.

Doutoramento de Maria Mariquita Vilaça (mãe de Ruth Cardoso). São Paulo, 14/11/1967. (Acervo Ruth Cardoso)

CUIDAR - Cadernos

Cadernos

A influência de sua mãe, que também foi professora, se manifestava em detalhes como o hábito de presentear pessoas próximas com cadernos instrutivos, escritos à mão. Documentos de cuidado, tratam-se de manuais diversos voltados à orientar, ao seu modo, os destinatários, em variados assuntos.

1 - Páginas de caderno de tricô presenteado por Mariquita a Ruth (Acervo Ruth Cardoso)
2 - Páginas de caderno de receitas presenteado por Ruth a Esther Hamburguer
3 - Páginas de caderno de receitas presenteado por Ruth a Maria Filomena Gregori
4 - "Manual para pais inexperientes", para seu filho Paulo Henrique, prestes a tornar-se pai (Acervo Ruth Cardoso)

CUIDAR - Ensinamentos no convívio

Ensinamentos no convívio

“Ela manteve a vida toda um aspecto que era próprio da sua personalidade. Gostava de formar pessoas (…) Essa formação não era apenas no campo profissional, a coisa era mais complexa. Ela se preocupava como estava a Regina profissional da AlfaSol, a mãe, a esposa, como estavam minha família, minhas relações de amizade.” – Regina Esteves

Pessoas que conviveram com a Dra Ruth em variadas capacidades receberam dela, nas interações cotidianas, as mais diversas lições. As conversas, de espírito pedagógico, abarcavam diversos temas.

Aqueles que conviveram com a Dra Ruth se beneficiaram de seu espírito pedagógico nas maiores e menores trocas cotidianas. Fosse falando sobre arte através das obras que colecionava, compartilhando sua experiência de pesquisa de campo na cidade com amigos, ou simplesmente através da postura que adotava perante o mundo, sua presença era marcada pela atitude de formadora.

1 - Depoimento de Sérgio Fausto sobre aprender sobre arte com Ruth Cardoso
2 - Depoimento de Maria Filomena Gregori sobre o estilo de ensino de Ruth Cardoso
3 - Depoimento de Ana Cristina Braga Martes sobre o carinho como ferramenta de formação
4 - Depoimento de FHC sobre a troca intelectual com Ruth Cardoso
4 - Depoimento de Gilda Portugal falando sobre o estilo de Ruth Cardoso na criação dos filhos
5 - Depoimento de José Gregori sobre como aprendeu com a visão e ideias de Ruth Cardoso

CUIDAR - "Você precisa ver como é feito"

“Quando ela me trazia um presente dizia ‘você precisa ver como é feito’” – Regina Meyer

Como “formadora de mão cheia”, Ruth Cardoso valorizava o processo de elaboração do conhecimento.

A apreciação do saber-fazer tradicional e a educação para a autonomia são duas faces de uma mesma moeda, que tem como elo comum a valorização dos processos. Esse apreço se manifestou com muita clareza no programa Artesanato Solidário, que teve como princípio regente a valorização do saber-fazer dos artesãos para que pudessem desenvolver autonomia em sua própria prática.

 

1 - Reportagem fotográfica, Ceará. 1995 a 2000 (presumida). (Acervo Ruth Cardoso)
2 - Depoimento de Helena Sampaio sobre os princípios do ArteSol
3 - Depoimento de Esther Hamburguer sobre a valorização do saber-fazer na arquitetura do ArteSol
4 - Depoimento de Antonio Arantes sobre a criação do ArteSol
5 - Apresentação de Ruth Cardoso no livro "Da Sede ao Pote" (Artesanato Solidário, São Paulo, 2003)

CAPACITAR

“Há uma maneira diferente na qual, realmente, cada um pode garantir a sua autonomia” – Ruth Cardoso

Parte fundamental de sua visão e ação formadora era voltada a dar autonomia aos outros. Aplicou esse princípio da capacitação em todos os aspectos da vida, de maneira coerente: fosse na criação dos filhos, na relação com os orientandos, ou nos desenhos dos programas sociais para todo o Brasil.

Militante, dedicou boa parte de sua pesquisa ao tema dos movimentos sociais como agentes de transformação social, analisando as novas formas de ação política articuladas pela sociedade civil e refletindo sobre o papel que isso viria a ter a partir da redemocratização do país. Embasada em seu conhecimento sobre o dinamismo da sociedade brasileira, tinha como eixo norteador do Comunidade Solidária fortalecer as capacidades das pessoas e comunidades para que pudessem agir como protagonistas do próprio desenvolvimento. Contribuiu para o fortalecimento da sociedade civil por observar nas comunidades a maturidade e o potencial para transformar o Brasil em um país menos desigual.

“Sempre enfatizou que dar autonomia aos outros era a melhor coisa que se podia fazer, e ela fez isso brilhantemente, foi essa atitude que ela levou para o Comunidade Solidária.”– Teresa Caldeira

Ruth Cardoso na Faculdade de Educação da USP em 05/02/1998. (Acervo Ruth Cardoso)

CAPACITAR - Comunidade Solidária

Comunidade Solidária

Quando seu marido foi eleito Presidente da República, Ruth igualmente precisou assumir a função pública de “primeira-dama”. Apesar de reconhecidamente desgostar do título, redefiniu seu papel e aproveitou sua posição para propor inovações sociais em âmbito nacional.

Partindo do princípio da autonomia e do diálogo, Ruth Cardoso concebeu e presidiu o Conselho do Comunidade Solidária (1995-2002). O programa inovador articulou relações de parceria entre sociedade civil, organizações não-governamentais, empresas, universidades e governo. Tinham três linhas de ação: fortalecimento da sociedade civil, abertura de novos canais de diálogo com o governo, e formação de parcerias para realizar programas inovadores de desenvolvimento social.

Desenvolveu  programas como Capacitação Solidária, Alfabetização Solidária, Universidade Solidária, Rede Jovem e Artesanato Solidário, entre outros. No fim da presidência de FHC, Ruth Cardoso criou a organização da sociedade civil de interesse público (OSCIP) Communitas, para garantir continuidade aos projetos do Comunidade Solidária.

O princípio fundamental dessas iniciativas era promover a formação e a capacitação das pessoas. Por meio da valorização do conhecimento das comunidades e da capacitação de cidadãos para que fossem agentes ativos e não recipientes passivos de programas sociais, buscou reduzir as desigualdades e ampliar o acesso ao conhecimento no Brasil.

1 - Transcrição de reunião do Conselho do Comunidade Solidária (Acervo Ruth Cardoso)
2 - Entrevista televisiva sobre o Comunidade Solidária (Acervo Ruth Cardoso)
3 - Transcrição da palestra "A Experiência do Comunidade Solidária: construindo parcerias para desenvolvimento social no Brasil." Proferida em abril de 2002 no Fórum ARCO de Assuntos Públicos na Universidade de Harvard (em inglês) (Acervo Ruth Cardoso)
4 - Depoimento de Celso Lafer sobre o Comunidade Solidária
5 - Depoimento de Pedro Malan sobre o Comunidade Solidária
6 - Depoimento de Pedro Moreira Salles sobre as rodadas de interlocução e a criação de uma agenda comum
7 - Depoimento de Horácio Piva sobre sua experiência no Comunidade Solidária
8 - Depoimento de FHC sobre o Comunidade Solidária

CAPACITAR - Educando para a independência

Educando para a independência

No foro mais íntimo, que é o da educação dos próprios filhos, Ruth Cardoso aplicou os mesmos princípios que regiam sua visão de formação — um exemplo da coerência entre sua teoria e sua prática. De maneira consistente e transversal com sua atuação posterior no desenho de programas sociais nacionais, aplicou sua visão de educar para a autonomia também na posição de mãe e avó.

1 - Citação de Paulo Henrique Cardoso
2 - Citação de Beatriz Cardoso
3 - Cartão postal escrito por Ruth Cardoso para os filhos Paulo, Luciana e Beatriz

CAPACITAR - Atuação pública

“Uma sociedade civil vibrante é um ativo-chave para o desenvolvimento” - Ruth Cardoso

Sua atuação pública, ao longo da vida, tomou muitas formas. Além de ser professora universitária também foi pesquisadora do Cebrap e do Cedac (Centro de Estudos sobre Ação Comunitária), pontes entre a vida acadêmica e a vida pública. Realizou pesquisas sobre os movimentos sociais e as novas formas de organização social em bairros periféricos e favelas. Foi militante feminista e engajou-se com movimentos das mulheres, e, enquanto presidiu o Conselho do Comunidade Solidária criou pontes de diálogo entre Estado e sociedade civil visando fortalecer o dinamismo da transformação social no Brasil.

Seu modelo de ação social visava dar os instrumentos para que as pessoas pudessem construir os próprios repertórios. A preocupação com diminuir os índices de analfabetismo, por exemplo, foi um esforço seu, em âmbito nacional, de ampliar a autonomia dos brasileiros através da educação.

1 - Roteiro de aula sobre a relação Estado e sociedade civil (Acervo Ruth Cardoso)
2 - Transcrição revisada da conferência "A Importância das ONGs na Educação" (Acervo Ruth Cardoso)
3 - Depoimento de Helena Sampaio sobre as bases do Comunidade Solidária
4 - Depoimento de Miguel Darcy sobre a visão social de Ruth Cardoso
5 - Depoimento de Danilo Miranda sobre modo de ação social de Ruth Cardoso
6 - Texto "Movimentos sociais urbanos: balanço crítico", Ruth Cardoso, 1984

MARCAR

Marcas que persistem

“A ausência de Ruth Cardoso – com sua seriedade incontestável, suas atitudes ponderadas e respeitabilidade alcançada em todos os setores – fará falta não apenas a nós, suas ex-alunas e companheiras de investigação e formulações intelectuais, mas a toda sociedade brasileira.” – Simone Coelho

O legado de formação da Dra. Ruth Cardoso é, em grande medida, imaterial. Seu estilo de produzir conhecimento, de construir projetos, e de se engajar em movimentos sociais, valorizava sempre a construção coletiva, com pouca preocupação autoral ou com “fazer escola” de pensamento. Ainda assim, deixou marcas institucionais nas cátedras universitárias e estabelecimentos públicos que levam seu nome, nos modos de fazer política social no Brasil, nos campos de estudo que ajudou a consolidar e nas organizações que criou ao longo da vida, como Cebrap, Comunidade Solidária e RedeSol, Comunitas e o Centro Ruth Cardoso, criado postumamente.

As interações formativas do dia-a-dia ficaram na memória daqueles que interagiram com ela como alunos, orientandos, assistentes, amigos, colegas, colaboradores e familiares.

1 - Homenagem póstuma prestada a Ruth Cardoso por Lilia Moritz Schwarcz (Acervo Ruth Cardoso)
2 - Texto póstumo em homenagem a Ruth Cardoso por Guita Debert, Maria Filomena Gregori e Simone Coelho publicado na Revista Brasileira de Ciências Sociais vol. 23 no. 68
3 - Texto póstumo em homenagem a Ruth Cardoso por Gilberto Velho publicado na Revista Dados vol. 51 no. 2
4 - Informe "Nós e nossa memória" FFLCH, USP. (Acervo Ruth Cardoso)

MARCAR - Legado institucional

Legado institucional

A presença de Ruth Cardoso nos espaços de ensino ainda é sentida, mais de uma década após sua morte repentina. Deixou um legado de formação de quadros — seus orientandos de pesquisa passaram a compor departamentos de Antropologia em universidades como USP, UNICAMP e Museu Nacional –, consolidou o próprio campo da antropologia urbana no Brasil, e tem duas cátedras universitárias que buscam honrar e dar continuidade à sua produção intelectual e pública. Hoje, a partir de seus 35 orientandos, poderia-se contabilizar centenas de “herdeiros” teóricos diretos no campo das Ciências Sociais.

Criada em 2009, a Cátedra Fulbright-Dra. Ruth Cardoso foi criada em homenagem à “memória da professora Ruth Corrêa Leite Cardoso, ex-bolsista da Comissão Fulbright na Universidade Columbia em 1988 e personalidade de destacada atuação na cena acadêmica brasileira, em particular nas ciências humanas e sociais.” Durante 2009 e 2019 concedeu bolsas anuais para pesquisadores brasileiros passarem um semestre na Universidade de Columbia, em Nova York, onde Ruth Cardoso fez um pós-doutorado. A partir de 2020, a cátedra se tornou parte da Universidade de Georgetown, em Washington, D.C. Mais recentemente, em 2019, a Cátedra Ruth Cardoso foi criada no Insper, com o objetivo de “honrar o legado de Ruth Cardoso em várias áreas relacionadas às políticas públicas.”

Desse modo, linhas de pesquisa que inaugurou e desenvolveu ao longo da vida, como juventude, movimentos sociais, novas mídias, avaliação de impacto de políticas sociais, entre outras, ganham novo fôlego e sua visão continua presente na formulação de análises da sociedade brasileira.

Ilustrando a transversalidade de seu caráter formativo, ela também empresta seu nome a uma Escola Municipal em Araraquara, a um Centro Cultural da Juventude em Vila Nova Cachoeirinha e a um Orquidário em São Paulo.

1 - Cadernos Ruth Cardoso vol. 1 2010, publicado pelo Centro Ruth Cardoso
2 - Vídeo de lançamento da Cátedra Ruth Cardoso, Insper

MARCAR - Legado de formação

Legado de formação

Ruth Cardoso deixou marcas em todos os que entraram em contato com ela. Alunos, colegas, amigos, familiares, parceiros e colaboradores comentam sua influência e legado em diversas instâncias. Os depoimentos aqui reunidos em vídeo, audio e texto refletem sobre a sua contribuição para passado, o presente e o futuro.

1 - Simone Coelho
2 - Manuel Castells
3 - Sergio Fausto
4 - Thereza Lobo
5 - Pedro Cardoso
6 - Ignácio de Loyola Brandão
7 - José Armênio Brito Cruz
8 - Rose Aparecida Moreira
9 - Roberta Sudbrack
10 - Teresa Caldeira
11 - Danielle Ardaillon
12 - Guita Grin Debert
13 - Pedro Moreira Salles
14 - Danilo Miranda
15 - Horácio Piva

Ficha técnica

Ficha técnica

Concepção: Fundação FHC

Curadoria e textos: Alice Noujaim Teixeira

Apoio técnico: Fundação FHC e Grifo Projetos

Imagem de capa: Sintrópika

Materiais:

Arquivo Ruth Cardoso

Vídeos:
Depoimentos
Direção: Helena e Caio Guerra (Irmãos Guerra Filmes)
Produção: Giovanni Pirelli
Estampas: Maria Cau Levy (Goma Oficina)
Assistente de edição: Lucas Minari
Objetos de cena: ArteSol
Coordenação institucional: Coral Michelin
Assistente de coordenação: Leandro Loterio

Depoimentos FHC
Direção e edição: Julia Zylbersztajn
Direção de fotografia e captação de som: Igor Dalbone

Referências bibliográficas:

Pesquisa e citações:
Ignácio de Loyola Brandão, Ruth Cardoso: Fragmentos de uma Vida. São Paulo: Editora Globo, 2010.

Margarida Cintra Gordinho, Livro de Ruth. São Paulo: Editora FECAP, 2009.

Ruth Cardoso, Miguel Darcy de Oliveira, Augusto de Franco, Thereza Lobo (org.), Comunidade Solidária: Fortalecendo a sociedade, promovendo o desenvolvimento. Rio de Janeiro: Communitas, 2002.

Teresa Caldeira (org.), Ruth Cardoso, Obra Reunida. São Paulo: Editora Mameluco, 2011.

Publicações de orientandos citadas:
Ana Cristina Braga Martes, Brasileiros nos Estados Unidos: Um estudo sobre imigrantes em Massachusetts. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1999.

Danielle Ardaillon, O salário da liberdade: profissão e maternidade, negociações para uma igualdade na diferença. São Paulo: Editora Annablume, 1997.

Gilberto Cardoso Alves Velho, Nobres e anjos: um estudo de tóxicos e hierarquia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1998.

Guita Grin Debert, Ideologia e populismo: Adhemar de Barros, Miguel Arraes, Carlos Lacerda, Leonel Brizola [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2008.

Helena Maria Sant’Ana Sampaio, O Setor Privado de Ensino Superior no Brasil. Tese de Doutorado. São Paulo: USP, volumes 1 e 2, 1998.

José Ricardo G. P. Ramalho, Estado-patrão e luta operária: O caso FNM. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1989.

Maria Filomena Gregori, Viração: experiências de meninos nas ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Mariza Corrêa, As ilusões da liberdade: a escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil [online]. 3rd ed. rev. and enl. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2013.

Simone de Castro Tavares Coelho, Terceiro setor: um estudo comparado entre Brasil e Estados Unidos. São Paulo: Editora SENAC, 2000.

Agradecimentos:
Ana Cristina Martes, André Oliveira, Antonio Teixeira, Beatriz Cardoso, Caio Guerra, Danielle Ardaillon, Dmitry Bayakhchev, Esther Hamburguer, Fernando Henrique Cardoso, Guita Grin Debert, Helena Guerra, Helena Sampaio, Insper, José Armênio Brito Cruz, José Luiz Sá de Castro Lima, Luciana Cardoso, Maria Filomena Gregori, Paulo Henrique Cardoso, Pedro Cardoso, Pedro Zylbersztajn, Roberta Sudbrack, Rose Aparecida Moreira, Sebastiana Cordeiro, Sergio Fausto, Simone Coelho, Teresa Caldeira e Thereza Lobo.